Em dia de jogo do Brasil, o país para, mas nem tanto. Para servir os milhões de torcedores que resolvem assistir os jogos na rua, os bares e centros comerciais ficam abertos. Cercados de televisões e gritaria, as vendas não param. Com a bola rolando ao fundo, cervejas, petiscos e pratos saem dos balcões a todo momento para as mãos dos clientes.
Um pequeno centro gastronômico e cultural na Asa Sul, em Brasília, reuniu centenas de pessoas para assistir a seleção brasileira contra a Suíça, pela segunda rodada da fase de grupos da Copa do Catar. Entre os torcedores, o óbvio. Muita festa, animação, expectativa e até mesmo um samba improvisado com pandeiro e um atabaque. Atrás dos balcões, também havia torcida, mas dividida com o trabalho.
Brasil bate Suíça e se classifica para as oitavas da Copa do Catar.Copa: torcedores no Museu do Futebol passam por momentos de tensão .Vitória da seleção embala expectativa do hexa entre torcedores no Rio.Durante a partida, Wesley Dieno atendeu vários clientes no balcão de um restaurante, servindo refeições, bebidas e churrasquinho, em um dia com muito mais vendas que o normal para uma segunda-feira. Em meio à gritaria da aglomeração à sua frente, sua passividade se destacava. Num momento de perigo, quando Richarlison entrava pela ponta direita da área adversária, ele sequer se perturbou. Continuou de cabeça baixa, passando o cartão de um cliente na máquina enquanto a torcida se ouriçava.
Minutos depois, quando Lucas Paquetá cruzou rasteiro na área e por pouco o camisa 9 não marcou na pequena área, Wesley entregava um prato executivo de coxa e sobrecoxa, inabalável ao frisson em volta. De forma semelhante, Tamara Marques, vendedora de uma loja de roupas e bijuterias, não parecia muito preocupada com a importância de uma vitória e, com isso, uma classificação antecipada às oitavas de final.
“Eu estou assistindo ao jogo também, vibrando junto com eles. Mas estou torcendo tranquila”, garantiu Tamara, de dentro da loja. Para ela, que disse adorar futebol, não há problema em trabalhar durante as partidas, uma vez que existem televisões por perto.
Já no segundo tempo, quando a clientela deu uma trégua, Wesley pode olhar com calma para o telão no momento em que Richarlison quase abriu o placar após um cruzamento de Vinícius Júnior. Richarlison, inclusive, é o jogador preferido de Wesley, que vestia uma camisa da seleção por baixo do avental de couro. Nas costas, o número 10, de Neymar, mas o nome não era do atacante do Paris Saint-Germain. Escrito à canetinha sobre o tecido, o nome do centroavante autor dos gols do Brasil na primeira partida.
“Meu sogro me deu a camiseta e era a camisa 10 do Neymar, mas eu não queria a camisa do Neymar, aí escrevi Richarlison”. Segundo ele, a preferência foi também por questões políticas. Richarlison é um atleta atento às questões sociais do Brasil e se notabilizou, durante a pandemia, por apoiar campanhas a favor da vacina contra covid-19.
O golaço de Casimiro, no entanto, desconstruiu a imagem de isento do atendente. Vibrou como qualquer torcedor que se espremia em frente às telas do local. Sorriu e vibrou junto com amigas parados do lado de fora do balcão. Já Tamara confirmou as primeiras impressões. Quando a bola finalmente venceu o goleiro da Suíça, Sommer, ela estava ao celular e não se comoveu com a explosão de alegria a cerca de três metros da sua loja. Olhou para frente, esboçou um sorriso blasé de satisfação e voltou às conversas online.
Mas o importante mesmo é que o gol de Casimiro garantiu, além da classificação, um jogo mais para esquentar o comércio e as caixas registradoras das lojas, bares e restaurantes. Ganha o Brasil, ganham todos.
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